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sábado, 20 de outubro de 2012

uma viagem de ida
qualquer dia,
compro um visto perpétuo

sobre o assento vago
meu espaço desocupado
deixo

alguns papéis triturados
o tom claro da voz
deito

um fazer sem reticência
também levarei 
comigo

preciso um navio
ouvidos sem vozes que soem
sempre que o coração se tocar

depois de alguma ocorrência
descobri que de lágrima
em lágrima
a vida se inunda

e é preciso partir
qualquer dia desses
eu juro por mim

ñ volto mais

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

perdi a mão para essa palavra curta de poeta, enxuta contra pedra e batida, batida, batida. perdi a mão que, volta e meia, esfarela-se, amarela, sempre que volto a estendê-la pronta a apanhar qualquer cinzel de sílaba. este amor de som amputou-me mãos e braços e razões inteiras. este amor de som aniquilou-me ante usurpadores de sentidos. morro de amor por tal palavra, já não a toco sem definhar-me inteira. sobrei-me fina areia sobre a terra amarronzada escura e já não sei amar senão às sílabas que salgam o mundo. perdi a mão e já não há sentido que me faça abrir a voz.
lençol de seda
onda sobre
sobras postas

por trás de palavras
sintaticamente cuidadas

a bela aparência
de cinzas e nadas

terça-feira, 9 de outubro de 2012

eu  só lhe peço
uma xícara
de café

pras enchentes
diárias
de meu
desacordamento


recentemente
decidi

ñ sucumbir
de todo

deixar às partes
o tudo
que lhes cabe

e vagar
reproduzindo
o falso efeito
de liberdade

enquanto minto

recentemente
descobri
o quanto
de existir

eu me ressinto

terça-feira, 2 de outubro de 2012

metalinguagem

anseio seda
avanço sede

líquidas linhas
cedo escorrem-me
entre dedos

em teu corpo
úmido in
fluente

caligrafo-me
ante rasgos
sonoros
de voz

de decassílabos
precoces
eu, sibilante

liberto-nos
útil para o desuso
eu

ñ conservo o pote vazio
bonito
do iogurte recém consumido

eu me recuso a reutilizar

ñ reciclo o lixo
eu me reduzo 
a cultivar sicômoros

eu ñ aguardo
eu me recluso
em meio a versos livres

sem socialidades
dialogo com o escuro sujo
do mundo
perecível sem conservantes

inaproveitável para a próxima 
e mais perene
geração futura
com a qual ñ contribuo

pq me salvo
como rascunho

casa

enfrenta, afronta
atrasa

em seu arrastar
a traça

na parede branca

frente à porta
da imaculada
sala de estar

ultraja

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

xto

eu nunca usei
ousar a fé
a outro céu
q ñ o teu

antes de jovem
adoeci
silenciei

ainda q meu
longínquo
passo
desgovernado
avance cego
em falso

tu lembrarás
o qto infante
eu me guardei
pra ti
de mar

perdi a voz
em meio
um
sonolento
e semi
estranho
mal estar

caindo sobre
em si
perdi

em meio
esse petróleo
circular opaco

em vez de som
ora em quando
arroto entalos
e enganos

descortinando
a falta
mais absurda

pálpebra negra
seda  apagada
e muda

apareci
tão parca
e pesada

parto q o mundo
mal suporta

de meia em meia hora
meu suspiro
aborrecido

me auto aborta